Sessenta anos: tempo de conjugar memória e verdade

Oneide Bobsin

Sessenta é um número natural redondo, mas pode ser dividido em três partes. Os vinte primeiros no mundo rural; os vinte seguintes subseguem-se com a formação superior, mestrado e doutorado, e o trabalho comunitário, tendo início os vinte seguintes que fecham os sessenta no dia 31 de julho, estes últimos centralizados no ensino, pesquisa, extensão e na gestão acadêmica.

Mas os tempos não são estanques, não se conta a vida por décadas, por meses ou dias. Aprendi de um dos meus mestres, no curso de graduação em teologia, que a vida se conta por meio de experiências significativas. Logo, não é o tempo cronometrado que conta, mas os momentos de kairós, tempo qualificado no qual o eterno se faz presente no provisório, como sinalizadores num tempo corrido e entrecortado por espaços distintos. E são muitos os momentos de kairós, para mim e para as pessoas com quem convivo na família que se constituiu com Marilene, Cristiano, Andreas e Graziela. Momentos significativos da comunidade de fé, cuja dimensão está nas raízes. Muitos e breves momentos na vida política e movimentos sociais. Momentos esperançosos na academia e na companhia de muitos/as estudantes que orientei e por elas/eles fui orientado. Momentos especiais na gestão da Faculdades EST, por oito anos; não sei o que se aproximou do tempo qualificado, se foram os momentos de crises ou as suas superações. Uns não se descolam dos outros.

Olhando para trás e para frente, poderia dividir o tempo em três, como a Trindade que nos sustenta. Gostaria de ter vivido dois terços, restando mais um terço para amadurecer alguns projetos de pesquisa, curtir mais a vida e continuar partilhando o que a maturidade nos proporciona. Sei também que projetos sonhados em salas de aula, tanto da graduação quanto da pós-graduação, foram assumidos por estudantes e concluídos com maestria, superando o mestre.

A história pessoal, individualizada e socializada, nos remete ao reconhecimento de que não sou apenas eu, mas muitos em mim. Um pouco de todos nos torna uma parte do todo que se esvazia e se enche com os/as outras/as, imagem do grande Outro, tão diferente de nós. Esvaziar-se permite troca de saberes na comunidade de aprendentes. A funcionária que zela pelo campus também é professora, especialmente das resistências dos pobres que não perdem a esperança, apesar dos podres e justos poderes.

Aos/às outros/as e ao Outro sou profundamente grato. Aprendi cedo a agradecer. É sinal do reconhecimento de que não somos uma ilha. Com isto perdi a ilusão de que os seres humanos se fazem a si mesmos, como se fossem deuses e deusas. Ao contrário, é na fraqueza que o poder se aperfeiçoa. Esta frase do Apóstolo Paulo tornou-se uma constante na minha vida. Ela é responsável pelos compromissos com a causa das maiorias oprimidas e deprimidas. Enganam-se aqueles e aquelas que olham  para este olhar para baixo como se fosse uma opção meramente política de poucas décadas. Ela também é política; mas muito anterior a ela. Sinto-me escolhido e acolhido por uma tradição de fé multimilenar, que não permite que se troque o que é sagrado – a vida dos que sofrem por causa da injustiça – por um prato de lentilha. Herança não se negocia, e os valores sagrados não se profanam pela mercantilização capitalista transformadora de sonhos e de esperanças em ilusões.

Minha infância no mundo rural, cercado de verdes morros, belas lagoas e próximo ao imenso atlântico, fez-me tomar na mamadeira a vivência entre família, comunidade/igreja e escola, a qual antes de ser pública foi comunitária. Soou-me estranha a pergunta pela relação entre fé e política na escola evangélica na qual realizei o ensino médio, no tempo da ditadura civil-militar. Naquela bela síntese da infância e juventude, que relaciona e distingue ao mesmo tempo o secular e o religioso, a oração familiar de todas as noites, o Pai Nosso, nos ensinava a conjugar mais no plural do que no singular. As ideologias vieram bem mais tarde, e já filtradas e motivadas por uma experiência fundamentalmente inexplicável, mas que se racionaliza sem dar à razão uma dimensão absoluta. Antes de pensar, simbolizamos.

Assim fui e vou sendo constituído pelos paradoxos da vida, das ciências, da religião, da política e da teologia, todas muito humanas, por isto bastante desumanas em muitos momentos. E a fé cheia de incertezas me move do futuro para o presente, arrancando-me do compromisso reacionário com o status quo, que tanto nos tenta.

Afinal, não temos aqui cidade permanente e tudo o que é sólido se desmancha no ar; verdades estas que lembram as fraquezas que nos irmanam e nos enchem de esperança contra toda a desesperança. Preciso mais uma metade dos sessenta vívidos até aqui para continuar semeando responsabilidades que nascem de convicções, conjugando memória e verdade.

Oneide Bobsin

São Leopoldo, RS, 30 de Julho de 2015.